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convergido:

Te vejo atravessando a rua e seguindo o caminho oposto às minhas mãos atadas. Soltei as suas por acreditar na estabilidade dos seus passos e negligenciei minha própria condição: minhas pernas bambeiam quando não caminham ao seu lado. Os carros, os trens, as pessoas, transitam tão rápido que minha visão se torna turva. Vejo seu vulto passando em cada esquina que cruzo, em cada sinal vermelho que atravesso e batendo insensatamente na minha porta pedindo abrigo. Nunca é você. As mãos que me invadem. Os pés que me guiam desengonçada na dança. Os olhos que me analisam com pena.

Nunca é você.
Me pergunto se algum dia foi.

Nas promessas, no meu cuidado quase maternal com suas fraquezas, no abandono hesitante de família, princípios e incertezas, na entrega. Eu faria tudo novamente se recuar não me fizesse te ver atravessar a vida e seguir o caminho oposto ao meu. Eu não sei andar tão rápido assim. Se você me observasse nos últimos meses saberia que abandonei todos os meus vícios, exceto o em você. Se você estivesse comigo nas manhãs de domingo saberia que eu só durmo quando o sol aparece, para não ter que encarar os fatos. Eram nas madrugadas que eu te tinha só pra mim, e agora elas são imensos buracos. Essa cratera quase humana reflete o que eu já previa: sua ausência dói, dor física, que sangra, que jorra bílis, que produz lágrimas. Elas me consomem e me transformam nisso entre dramática e patética. Me encolho na cama e canto baixinho para afastar os demônios que insistem em dizer que não tem mais volta. Sou deficiente, debilitada e incapaz de seguir sozinha. A queda é iminente e livre, o choro é consequência. Mas antes de tudo, antes de me ensinar a ser amada e a sorrir, você me ensinou a ser forte e rocha. Eu posso sobreviver ao chão. E se não conseguir levantar, me arrasto. Sujo as palmas das mãos, arranho o rosto no asfalto e não grito socorro.

Severinar.

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